sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Fomos


Cabe alguma explicação?
Medos que não eram nossos
Nunca foi nossa intenção
Espalhar tantos destroços
O que fomos não será
Definido por palavras fáceis
Que alguém dirá
Não estará nos calendários, dicionários
Nem nas buscas do google

Quis manter meus pés no chão
Despenquei do mesmo jeito
Na tábua de salvação
Escorreguei, mais um defeito
Não sabia o que esperar
E esperei pelo pior
Mas o pior foi piorar
Quando eu entendi que te perdi
Por me perder
Ao ser o que eu não era
Hoje eu sei...
Hoje, eu só

Jay Vaquer

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Consciência Cósmica

Já não preciso de rir.
Os dedos longos do medo
largaram minha fronte.
E as vagas do sofrimento me arrastaram
para o centro do remoinho da grande força,
que agora flui, feroz, dentro e fora de mim...

Já não tenho medo de escalar os cimos
onde o ar limpo e fino pesa para fora,
e nem deixar escorrer a força dos meus músculos,
e deitar-me na lama, o pensamento opiado...

Deixo que o inevitável dance, ao meu redor,
a dança das espadas de todos os momentos.
e deveria rir , se me retasse o riso,
das tormentas que poupam as furnas da minha alma,
dos desastres que erraram o alvo do meu corpo...

João Guimarães Rosa

Das tuas palavras


Por acaso eu falei que era pra entender?
Nunca quis ninguém a dominar o que se passa dentro da minha cabeça, egoísmo ou não, é só meu. Não sei até que ponto dividir pode ser bom pra você, sei que não seria bom pra mim. Fica então com o que vês; mas presta atenção, como diria Saramago: Repara!

É preciso consubstanciar as palavras. Desligá-las de um sentido prático, dissociá-las das tuas ações, as tornam meras junções de letras. É preciso que sejam elas coerentes com o que fazes. Guarda uma coisa em tua cabeça: Não preciso de adjetivos ou advérbios, de ti, quero apenas o que for substantivo.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Aconteceu

Aconteceu
Eu não esperava, mas aconteceu
Todo o bem que fiz, se fiz, ela esqueceu
Revelando a sua imprudência
Construí um lar, o lar que ela pedia
Exigiu-me coisas que ela não queria
É e aconteceu
Hoje ela chora tudo o que perdeu
E chorando veio me pedir perdão
Fica para ela a lição

Cartola

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Mais e Menos

Afinidade acontece.
Um mesmo signo, um mesmo par de
Sapatos caramelo, um mesmo livro de cabeceira.
Afinidade acontece entre seres humanos.
A mesma frase
Dita ao mesmo tempo, o diálogo mudo dos olhares e a
Certeza das semelhanças entre o que se canta
e o que se escreve.
Afinação acontece.
Um mesmo acorde,
um mesmo som, uma mesma harmonia.
Afinação acontece entre instrumentos musicais.
A mesma nota repetidas vezes,
Abusca pela perfeição sonora e a certeza das
Similaridades entre um tom acima e um tom abaixo.
A incrível mágica acontece quando os instrumentos musicais
Descobrem afinidades humanas entre si no
Mesmo instante em que os seres humanos descobrem
Afinações musicais dentro deles mesmos.

Fernando Anitelli

Ecoando notas

O moço toca flauta enquanto ela lembra das virtudes
Esquecidas nas cavernas de seu coração. A melodia vai
Ecoando por toda parte, desde os ouvidos até o pulmão.
Ela tropeça nela mesma enquanto se enternece com o som
Raro daquela flauta. E a tristeza transversal que até
Então lhe preenchia dá lugar a uma euforia luminosa,
Assim sem razão de ser, mas já sendo.

Fernando Anitelli

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Timidez

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...


- mas só esse eu não farei.


Uma palavra calda
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...


- palavra que não direi.


Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,


- que amargamente inventei.


E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...


- e um dia me acabarei.

Cecília Meireles