De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
Vinícius de Morais
sábado, 6 de novembro de 2010
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Canto de Amor
A minha dor se desfaz quando canto
Por isso não derramo pranto
O que sei é somente cantar
Toda tristeza que mora em meu peito
Me agita e me dá o direito
De sorrir pra não chorar
O dia-a-dia com seu desafio
O tempo que passa vadio
O amor que se faz sem amor
O desencanto do tudo por nada
A vida seguindo marcada
De saudade e dissabor
É por isso que eu canto, amor
É por isso que eu canto, amor
Tanto faz eu quero é viver
O meu sofrer vai se acabar
Talvez um dia
Uma alegria
Todo esse mal apagará
Délcio Carvalho / Barbosa da Silva
Por isso não derramo pranto
O que sei é somente cantar
Toda tristeza que mora em meu peito
Me agita e me dá o direito
De sorrir pra não chorar
O dia-a-dia com seu desafio
O tempo que passa vadio
O amor que se faz sem amor
O desencanto do tudo por nada
A vida seguindo marcada
De saudade e dissabor
É por isso que eu canto, amor
É por isso que eu canto, amor
Tanto faz eu quero é viver
O meu sofrer vai se acabar
Talvez um dia
Uma alegria
Todo esse mal apagará
Délcio Carvalho / Barbosa da Silva
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
A escolha
E pensar que um dia eu escolhi você
pra dividir a existência,
as poucas alegrias
e a febre que eu sentia.
Me perdi na sua busca por respostas
p'ras perguntas que você nunca vez.
pra dividir a existência,
as poucas alegrias
e a febre que eu sentia.
Me perdi na sua busca por respostas
p'ras perguntas que você nunca vez.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Noções
Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.
Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que
a atinge.
Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se
encontram.
Virei-me sobre a minha própria existência, e contemplei-a
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.
Ó meu Deus, isto é a minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e
precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e
inúmera...
Cecília Meireles
para a navegação dos meus desejos afligidos.
Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que
a atinge.
Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se
encontram.
Virei-me sobre a minha própria existência, e contemplei-a
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.
Ó meu Deus, isto é a minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e
precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e
inúmera...
Cecília Meireles
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Resultado
Em algumas horas parece tristeza,
em outras parece desordem.
Tem dias que é fúria louca,
em outros saudade enorme.
Não brinquei de amar,
amei como podia.
E agora o que tenho?
Uma cama vazia.
E se alguém disser:
- E as lembranças?
Eu repondo:
- Ah, eu não sou boa de memória
em outras parece desordem.
Tem dias que é fúria louca,
em outros saudade enorme.
Não brinquei de amar,
amei como podia.
E agora o que tenho?
Uma cama vazia.
E se alguém disser:
- E as lembranças?
Eu repondo:
- Ah, eu não sou boa de memória
Ao coração que sofre
Ao coração que sofre, separado
Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,
Não basta o afeto simples e sagrado
Com que das desventuras me protejo.
Não me basta saber que sou amado,
Nem só desejo o teu amor: desejo
Ter nos braços teu corpo delicado,
Ter na boca a doçura de teu beijo.
E as justas ambições que me consomem
Não me envergonham: pois maior baixeza
Não há que a terra pelo céu trocar;
E mais eleva o coração de um homem
Ser de homem sempre e, na maior pureza,
Ficar na terra e humanamente amar.
Olavo Bilac
Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,
Não basta o afeto simples e sagrado
Com que das desventuras me protejo.
Não me basta saber que sou amado,
Nem só desejo o teu amor: desejo
Ter nos braços teu corpo delicado,
Ter na boca a doçura de teu beijo.
E as justas ambições que me consomem
Não me envergonham: pois maior baixeza
Não há que a terra pelo céu trocar;
E mais eleva o coração de um homem
Ser de homem sempre e, na maior pureza,
Ficar na terra e humanamente amar.
Olavo Bilac
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Eu
Até agora eu não me conhecia,
julgava que era Eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.
julgava que era Eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.
Mas que eu não era Eu não o sabia
mesmo que o soubesse, o não dissera...
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim... e não me via!
Andava a procurar-me - pobre louca!-
E achei o meu olhar no teu olhar,
E a minha boca sobre a tua boca!
E esta ânsia de viver, que nada acalma,
E a chama da tua alma a esbrasear
As apagadas cinzas da minha alma!
Florbela Espanca
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