terça-feira, 19 de outubro de 2010

Resultado

Em algumas horas parece tristeza,
em outras parece desordem.
Tem dias que é fúria louca,
em outros saudade enorme.

Não brinquei de amar,
amei como podia.
E agora o que tenho?
Uma cama vazia.

E se alguém disser:
- E as lembranças?
Eu repondo:
- Ah, eu não sou boa de memória

Ao coração que sofre

Ao coração que sofre, separado
Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,
Não basta o afeto simples e sagrado
Com que das desventuras me protejo.

Não me basta saber que sou amado,
Nem só desejo o teu amor: desejo
Ter nos braços teu corpo delicado,
Ter na boca a doçura de teu beijo.

E as justas ambições que me consomem
Não me envergonham: pois maior baixeza
Não há que a terra pelo céu trocar;

E mais eleva o coração de um homem
Ser de homem sempre e, na maior pureza,
Ficar na terra e humanamente amar.

Olavo Bilac

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Eu

Até agora eu não me conhecia,
julgava que era Eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.

Mas que eu não era Eu não o sabia
mesmo que o soubesse, o não dissera...
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim... e não me via!

Andava a procurar-me - pobre louca!-
E achei o meu olhar no teu olhar,
E a minha boca sobre a tua boca!

E esta ânsia de viver, que nada acalma,
E a chama da tua alma a esbrasear
As apagadas cinzas da minha alma!

Florbela Espanca

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Para o meu coração

Para o meu coração basta o teu peito,
para a tua liberdade as minhas asas.
Da minha boca chegará até ao céu
o que dormia sobre a tua alma.

És em ti a ilusão de cada dia.
Como o orvalho tu chegas às corolas.
Minas o horizonte com a tua ausência.
Eternamente em fuga como a onda.

Eu disse que no vento ias cantando
como os pinheiros e como os mastros.
Como eles tu és alta e taciturna.
E ficas logo triste, como uma viagem.

Acolhedora como um velho caminho.
Povoam-te ecos e vozes nostálgicas.
Eu acordei e às vezes emigram e fogem
pássaros que dormiam na tua alma.

Pablo Neruda

quarta-feira, 28 de julho de 2010

O amor que merece

O meu amor me diverte quando chama
Diz que me ama
Depois não dá a mínima e desaparece

O meu amor me entristece
Cria expectativa
Mas não liga
Me convida em seguida me esquece

Mas como ele mesmo diz
Cada um tem o amor que merece
Não reclama
Cada um só tem o amor que merece

Zeca Baleiro e Alice Ruiz

Absurdo

Mas só há um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da descoberta absurda. Acontece também que o sentimento do absurdo nasça da felicidade. “Acho que tudo está bem”, diz Édipo e essa frase é sagrada. Ressoa no universo altivo e limitado do homem. Ensina que nem tudo está perdido, que nem tudo foi esgotado. Expulsa deste mundo um deus que nele entrara com a insatisfação e o gosto das dores Inúteis. Faz do destino uma questão do homem, que deve ser tratado entre homens. Toda a alegria silenciosa de Sísifo aqui reside. O seu destino pertence-lhe.

Albert Camus
Retirado do Mito de Sísifo

Tempo

Como eu queria que fosse possível voltar no tempo.
Agir diferente, ou mesmo ter tempo para corrigir alguns erros. Não me martirizo por eles, faziam e continuam fazendo parte da minha trajetória de vida e de “constante aprendizado”. Mas não posso ser hipócrita e dizer que não me arrependo deles. Sim, e muito. As coisas aconteceram no lugar certo e na hora errada, e vimos que isso fez toda a diferença. Gostaria de poder viver tudo aquilo novamente, no momento em que me encontro hoje. Na ausência de possibilidades me apego às lembranças desse tempo alegre. Sou extremamente grata a elas.